Cotidiano

ENSAIO SOBRE A MIOPÍA

Olá, periclitante leitor.

Tendo em vista a popularização do óculos como acessório fashion e da cirurgia de correção de miopía como grande sinônimo de status (mesmo entre os indies), não seria errado sentenciar que no mundo atual o sentimento que nos une é o do amor míope: mal nos enxergamos e já nasce o afeto. Curioso pensar que na dita “sociedade atual” a coisa funciona assim mesmo: usamos o astigmatismo e aquele glaucoma pueril como moeda de troca para que as amizades se mantenham firmes, sem tropeços.

Pois quantas vezes você já não se deparou com a seguinte situação:

Em um dia de muito calor ou até mesmo de muito frio (o clima-tempo não faz diferença nenhuma aqui, na verdade) você está andando pela rua, NA CORRERIA, e vê um vulto que lhe parece familiar. Enfeitiçado pelo magnetismo que é encontrar um rosto conhecido na multidão, você, pequenino sonhador, eterno romântico, prende os olhos no tal vulto e ao menor sinal de completa retenção de fisionomia alheia, já sentencia: CONHEÇO ESSE CABOCLO.

A partir daí, você já não desgruda mesmo o olhar do rosto do seu “conhecido”, buscando na memória quem é mesmo a tal pessoa. Um antigo amor? Raspa de tacho de um coração? Vizinho que saía comprar leite usando calção do Fluzão? Quem, quem será esta pessoa, que você conhece o rosto, mas desconhece o passado?

Como se tivesse caído do céu ou subido do inferno, por certo saiu de algum lugar, quase certeza que veio de Itaquera, quem sabe da Vila Madalena, pelo chapéu SÓ PODE que veio da Augusta.

Então você olha bem e fala: SIM, CLARO! E percebe que a tal pessoa é um astro de cinema, um cantor internacional, uma atriz que já morreu a três anos.

E percebe, chocada, que você teve uma alucinação de paparazzi. Do tipo: vejo celebridade onde não tem. Então vem o gosto amargo da derrota, aqueles cinco segundos em que você questiona sua sanidade mental. Seu rosto se desfigura e vai da alegria ao choque tristonho. Achava ter visto um amigo e na verdade era apenas um lookalike de uma celebridade qualquer. E não bastasse ter que lidar com todo este conflito de sentimentos, ainda há o outro lá. A tal pessoa que você tanto confundiu. Pois, é claro, de tanto ficar olhando pra ela você chamou a atenção. E a tal pessoa fica ali te olhando, toda esperançosa. Somos amigos? Podemos ser?Por vezes esquecemos a caixa de Pandora que é um coração guiado pela miopía. Por vezes esquecemos que não devemos tratar como prioridade quem te trata como imaginação.

A saída é retribuir com um sorriso e escapar o quanto antes. “Escapar o quanto antes”, do latim “sebo nas canelas”. Não é o momento de novas amizades, o cérebro ainda confuso, as vistas fatigadas. O jeito é se conformar e seguir em frente. Isso acontece todos os dias. Não é preciso ter vergonha. Isso acontece o tempo todo.

Se não for isso, acho que vi o Fred Armisen hoje no metrô. E ele sorriu pra mim.

fred armistein