28 outubro, 2010

A TRISTE HISTÓRIA DA BOLACHA PREMONITÓRIA

Olá, cristalizado leitor.

Comprei uma bolacha esta tarde, para me fazer companhia nos momentos de desespero no trabalho. Você sabe, a vida é bela e injusta ao mesmo tempo. Por vezes torna-se dificil suportá-la, sobretudo em horário comercial. Nestas ocasiões ter um pacote de biscoito torna tudo mais leve e saboroso e é neste tipo de auto-ajuda que eu acredito.

Mas a bolacha. Não citarei a marca, posto que este não é um post pago e mesmo se fosse, não sei se tal empresa aceitaria este tipo de publicidade. Viver supera qualquer experiência. Blogar educa. Este é um post que vai relatar brevemente o episódio da bolacha e seus desdobramentos em minha vida.

É necessário salientar que ao adentrar a loja de guloseimas eu só tinha um real para gastar. Sim, sim. Tudo isso que você está lendo são os bastidores da minha vida. Sim, sim. Um real e o coração repleto de amor, era só o que eu tinha ao adentrar a loja de guloseimas. O orçamento apertado, a gulodice apertando, foquei nas prateleiras mais modestas do estabelecimento.

Se você for pegar a história da indústria de guloseimas vai ver que bolachas nunca foram um artigo exatamente barato, ao menos não no quesito custo X benefício. Quando criança somos levados a acreditar que as bolachas são mais acessiveis, já que são nossos pais quem bancam tudo e a gente só vê a mamãe chegar com as compras, nunca vê o papai o dia todo se lascando na labuta pelo salário que paga essas compras. Pegamos apenas o resultado final, chafurdamos em um copo de leite e comemos vendo Pica-pau na TV.

Que fase gloriosa.

Já crescidos a coisa muda de figura. Então você tem 26 anos, um real no bolso e quer comprar uma bolacha. Tente encarar isso.

É curioso observar como o mundo é repleto de promessas feitas por quem não as pode cumprir. No universo da bolacha, isto é palpável e vem nos sabores chocolate, morango e baunilha. As bolachas mais caras (e mais gostosas) são as que tem as embalagens mais sisudas: apenas a marca, uma imagem ilustrativa e pronto. Você não precisa mais do que isso. Você sabe que a bolacha é boa. Ela custa quatro reais, caramba. Tem que ser boa.

Já as bolachas mais, como direi, modestas, tem as embalagens mais poluídas visualmente. Em cores gritantes, com desenhos de bichinhos (alguma turminha que querem que você se identifique e ame) e repletas de falsas promessas. Quer dizer, você só tem um real, você sabe que não vai conseguir uma das melhores. Mas a bolacha modesta, mesmo sendo ruim e sabendo-se ruim, quer que você acredite que está fazendo um grande negócio.

São sempre frases de incentivo, tais como: "Deliciosa!", "Perfeita!", "Combina com tudo!", "O sabor da galera!", "Sete milhões e meio de vitaminas!". Este tipo de coisa. Isso mais entristece do que motiva o consumidor. Oras, a bolacha se chama XikiXiki (nome fictício) e custa noventa centavos. É LÓGICO que ela não combina com tudo. Combina só com o meu bolso e olha lá.

A bolacha modesta que escolhi esta tarde me custou noventa centavos. Foi o melhor que pude fazer. Recheada, sabor chocolate. Parecia promissor, dentro das possiblidades. Já no trabalho, em um momento de rara beleza, me dispus a examinar a embalagem do quitute enquanto o degustava. Duas falsas promessas em especial me chamaram a atenção. São elas:
Por que o biscoito TucTic (nome fictício) é tão gostoso?
Havia um pequeno texto respondendo à questão de maneira exageradamente elogiosa. Se a questão fosse dirigida à mim, porém, a resposta seria outra. Gostaria de compartilhar com vocês:

Por que o biscoito TucTic (nome fictício) é tão gostoso?

E por que o céu é azul, o mar é poluído e os desertos são temas de romances de auto-ajuda de escritores brasileiros que consideram magos? As coisas e as pessoas são o que são, mas acima de tudo, são o que elas querem que elas sejam. Para mim o biscoito TucTic é horroso, mas só tenho a ele. E você dizendo que ele é gostoso acaba me fazendo acreditar que ele realmente o é. Assim age o ser humano, acredita no que lhe dão para acreditar.

Esta seria a resposta que eu colocaria na embalagem, apenas mantendo a fonte Comic Sans da resposta original, por cortesia.

A segunda falsa promessa da bolacha é, na minha opinião, a melhor falsa promessa que eu já li em uma bolacha. Vou além, é a melhor falsa promessa que já vi na vida e olha que eu já vivi um bocado. Na tela:
De um jeito ou de outro, todo mundo come!

Juro por Deus. Eu quero dizer, como assim "de um jeito ou de outro"? Significa que não adianta eu fugir, trabalhar, ganhar bem, de um jeito ou de outro eu vou acabar tendo só um real no bolso e só podendo comprar uma Tuctic? É isso? Que tipo de monstro sem coração escreve essas frases? Eu achei que esta bolacha me faria bem, mas me deixou arrasada! Como confiar em um alimento onde a ironia da embalagem é mais fina que o recheio do produto? E o que quer dizer este "todo mundo come" macabro no final da frase? Seria uma maldição, o mundo todo vivendo à base de TucTic pelo resto da eternidade? De um jeito ou de outro, a humanidade condenada?

Por sorte Deus me ajudou e achei mais quarenta centavos no bolso, o que, somado ao troco da bolacha me possibiltou comprar um bombom. Foi o que me salvou do futuro terrivel que vislumbrei e que quero esquecer para sempre. Comendo bombom a vida é mais feliz. Bombons não mentem, não iludem. São o que são.



Cuidado!


Bolacha Tuctic nunca mais.
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